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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A ORIGEM DA CONSCIÊNCIA MORAL NA CRIANÇA


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

A palavra “consciência” nos remete a uma estrutura importante de nossa mente que compreende a consciência do Eu como unidade integradora entre a mente e o corpo, compreendendo a consciência do “Eu” como única e singular que habita um corpo e que este lhe proporciona sensações e percepções que o afetam, podendo ser racionalmente compreendidas como sendo de fatores internos ou externos, sabendo, perfeitamente, fazer oposição ou, melhor dizendo, fronteira entre o Eu e o mundo externo; que tem consciência de sua vivência de tempo e espaço, conseguindo descrever o que é passado, presente e futuro, como também onde está e se localiza; que possibilita os mais variados tipos de atividades psíquicas como pensar, estudar, falar, fazer, caminhar, querer e tantas outras atividades conscientes. Em outras palavras, as qualidades do Eu são desenvolvidas para a realidade dos fatos, dos acontecimentos da vida e a partir da interpretação e compreensão do que o indivíduo se apodera, possibilite a melhor forma de convivência social, que deverá ser norteada por um conjunto de regras, costumes, tabus e convenções estabelecidas por uma sociedade. A compreensão de tais preceitos e, sobretudo, o se enquadrar neles, chamaremos de consciência moral. A mesma inclui o desconforto emocional de fazer algo como também à capacidade de saber abster-se de fazer.

A convenção das regras de convívio social é estabelecida pela cultura, sendo os pais ou quem ocupe esse lugar os primeiros representantes da simbologia cultural em nossa sociedade. Em outras palavras, antes que uma criança possa desenvolver uma consciência moral é necessário que ela tenha internalizado padrões morais que a cultura local preconiza como padrão comportamental de convivência na sociedade.

A consciência moral não acontece pela via da regulação dos pais ou de quem quer que seja; dependendo sim, da disposição da criança em fazer a coisa certa porque de fato ela acredita que é certo sendo este o motivo que a criança quando é desautorizada pelos pais de algo que esteja fazendo, pergunta de imediato o motivo da negativa. Dizer apenas que não é certo o que ela está fazendo sem explicar o porquê, não funciona como internalização do certo ou errado, já que não se deu oportunidade para a criança de ficar convencida de seu erro, mesmo porque em muitos casos o dizer dos pais não corresponde com o fazer, ou seja, a criança internaliza mais o que é o certo através do comportamento dos pais e não apenas do que é dito. No entanto, os pais não devem se ausentar de exercer o controle inibidor de certas ações praticadas por seus filhos, pois tal prática ajudará a criança a exercer a sua própria auto-regulação, ajudando-a a fazer o seu próprio esforço para conter seus impulsos.

A prática de alguns pais de sorrir com o que seu filho fez de errado ao invés de repreendê-lo – sem violência –, passando a mão sobre a cabeça do filho como se nada de errado tivesse acontecido e, ainda, dizendo que tal comportamento é coisa de criança e quando ele crescer não acontecerá mais tal prática, é extremamente nociva para a constituição da personalidade e caráter desse indivíduo. É preciso saber que os pais ao repreender seu filho por algo que ele fez de errado como, por exemplo, por ter sido agressivo com outra criança ou mesmo com um adulto, está ajudando o filho a exercer o poder de auto-regulação que é o principal fundamento da socialização, controlando sua agressividade para que possa canalizá-la numa forma aceitável pela sociedade, como nos esportes, mas para isso é necessário que exista a internalização introduzida pelos pais. De que modo, então, se vale a cultura para inibir ou mesmo eliminar a agressividade que a defronta? A este questionamento deixaremos que Freud responda:


(...) O que sucede nele [o indivíduo], que torna inofensivo o seu prazer na agressão? (...) A agressividade é introjetada, internalizada, mas é propriamente mandada de volta para o lugar de onde veio, ou seja, ou seja, é dirigida para o próprio Eu. Lá é acolhida por uma parte do Eu que se contrapõe ao resto como Super-eu e que, como “consciência”, dispõe-se a exercer contra o Eu a mesma severa agressividade que o Eu gostaria de satisfazer em outros indivíduos estranhos. À tensão entre o rigoroso Super-eu e o Eu a ele submetido chamamos consciência de culpa; ela se manifesta como necessidade de punição” (Freud 4, 2, p. 92/250).


Reforçando o dizer de Freud, mas obviamente, conforme o seu entendimento, o Winnicott diz que a moralidade depende da capacidade de sentir culpa e de reparar o objeto cuja danificação provocou culpa. 

É importante dizer que, para existir essa consciência, ou seja, a consciência de culpa será preciso que antes esteja bem definido para o sujeito o conceito de certo e errado, sendo em casa com os pais que ele terá as primeiras lições. O esforço em conjunto da família que apresenta um ambiente sem maiores pertubações, contribuirá para a formação da personalidade e do caráter da criança, pois a compreensão dessa dinâmica nos leva a mencionar uma frase de Freud quando ele diz “que a criança é o pai do homem”, ou seja, antes do indivíduo ser um homem ele teve a sua fase de criança, período este que a sociedade espera que tenha existido uma preparação para a vida social.   

Ao ter uma compreensão das respostas emocionais dos pais relativas à conduta que eles aprovam para ela, a criança na medida em que processa, armazena e age de acordo com tais preceitos, crescerá nela a necessidade de agradar aos pais, fazendo aquilo que eles querem que ela faça, quer estejam ou não por perto, mas para isso acontecer existem inúmeros outros fatores que começaria antes mesmo do nascimento com o desejo dos pais que ela venha ao mundo. 

O desejar dos pais antes mesmo que seu filho venha ao mundo é a primeira condição de se estabelecer um bom relacionamento entre eles e o filho, mas não quero dizer com isso que acontecendo uma gravidez inesperada os pais também não venham desejar da mesma forma. O que de fato é importante nessa história é o desejar.  

Uma boa construção do laço familiar que só se consegue paulatinamente com a convivência é condição sine qua non para a harmonização doméstica, e também para dar o suporte necessário para a criança enfrentar as suas inúmeras ansiedades, próprias das fases de seu desenvolvimento. Um ambiente acolhedor propiciado pelos pais, uma boa relação fundada no amor, respeito, compreensão e amizade, propicia um melhor diálogo entre pais e filho, fazendo com que o mesmo se sinta seguro em dizer coisas sobre ele que jamais seriam ditas, caso não existisse o referido clima, mas para que isso aconteça é necessário que os pais se façam presentes na vida do filho, sabendo, obviamente, respeitar o espaço do filho. Esse clima favorece as identificações e a socialização da criança que em um dia não muito distante para os pais se tornará um adulto. 

O apego seguro e um relacionamento afetuso e mutuamente responsivo entre pais e filhos parecem favorecer a obediência comprometida e o desenvolvimento da consciência moral, segundo Papalia, Olds & Feldman (p.218, 2010).
   
* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O SEXO NA GRAVIDEZ E AS ALTERAÇÕES ORGÂNICAS E PSÍQUICAS DA GESTANTE


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

            É natural durante o período gestacional que as futuras mães e pais fiquem receosos em se relacionar sexualmente e tragam questionamentos do tipo: existirá algum desconforto para ela? Com os movimentos corre o risco de machucar o bebê ou mesmo provocar algum dano para o desenvolvimento da gestação? Enfim, fazer sexo durante a gravidez faz bem ou mal? A preocupação e os cuidados do casal  aumentam quando já existe algum caso de aborto natural.

            O sexo sempre teve a sua parcela de importância na vida de um casal e não será agora que o casal está esperando um filho, melhor dizendo, grávidos, que deixará de ter. O desejo do homem em manter relações sexuais com sua mulher também levanta a autoestima dela, fazendo com que ela se sinta desejada como mulher, mesmo não se sentindo tão atraente naquele período, já que seu corpo passa por profundas modificações e seu organismo passa por grandes alterações  fisiológicas e bioquímicas, a se somar com as alterações psicológicas.

            É importante que o homem saiba que por volta do segundo trimestre da gravidez com o aumento das sensações incômodas, a libido da mulher pode cair e acontecer o desinteresse momentâneo pelo sexo. No entanto, isso não será um fator definitivo durante toda a gravidez. Como a região da vagina está extremamente sensível devido a uma maior vascularização da região, a libido da mulher poderá voltar ou ainda, poderá ser maior. Em outras palavras, seu apetite sexual estará aumentado. 

            No período gestacional é comum que na medida em que o feto for se desenvolvendo a mulher sinta dores nas costas, sendo mais fácil agachar-se do que se abaixar; os seios fiquem maiores, pesados e mais sensíveis ocasionando dor, um líquido transparente parecido com leite comece a sair dos mamilos; as fezes podem ficar mais duras dificultando a defecação, ou seja, prisão de ventre; devido às alterações hormonais é uma constância a existência de queixa de azia. Outras alterações seriam o inchaço em partes do corpo, câimbras nas pernas, estrias etc.

No aspecto psicológico, os primeiros três meses equivalem a um período de adaptação da mulher com sua gravidez, podendo ocorrer alterações significativas. A primeira pode ser a própria aceitação de estar grávida, pois pode se tratar de uma gravidez inesperada e, consequentemente, não planejada, e até mesmo uma gravidez indesejada. Outra alteração que surge no início da gestação diz respeito à ansiedade que a mulher apresenta em relação à própria gravidez, como por exemplo, o medo de ter alguma complicação na gestação que venha a perder a criança. Com o desenvolvimento da gravidez e o natural ganho de peso que provoca muitos incômodos, muitas gestantes ficam com o seu emocional abalado, provocando um sentimento de baixa autoestima. Com a aproximação e a chegada do bebê, surge a preocupação com o nascimento (parto) e a insegurança de assumir  a função de mãe. Salientando que, em todo o desenvolvimento gestacional tanto a mãe como o pai, provavelmente, estará revivendo sua fase edipiana, ou seja, revivendo seus laços e experiências vividas com seus pais e com sua família. Uma boa passagem pelo Édipo será extremamente importante para a constituição desses sujeitos como pais.

O desenvolvimento gestacional deve implicar numa decisiva e importante travessia para o casal, a mulher deixa de ocupar apenas o lugar de mulher e esposa para ocupar, também, a função de mãe; o homem deixa de ocupar apenas o lugar de homem e esposo para ocupar, também, a função de pai. Essa experiência deve acontecer no transcurso da gravidez, intensificando-se com o nascimento.  Crescem as responsabilidades e logo a insegurança e o medo de como exercer essas funções estarão presentes.  

Outros aspectos psicológicos poderão estar presentes na gravidez a depender da personalidade e historia de vida de cada gestante, mas concluiremos essa parte mencionando o homem, muito pouco comentado nesse artigo. O pai ou o futuro pai também enfrenta algum tipo de alteração emocional, o mais comum é o de se sentir abandonado durante a gravidez da mulher, já que muito de seu a libido e desejo se voltam para o futuro membro da família.  

Retornando o que já mencionamos no início de nosso texto, o sexo é importante na vida do casal e não deixaria de ser na gravidez, mas obviamente que o mesmo deverá ser feito com muito carinho e cuidados especiais. Conforme o útero da mulher for crescendo, o homem deverá posicioná-la confortavelmente sem compressão forte sobre o bebê, evitando, assim, qualquer sobrecarga além do próprio peso da gravidez. Evitar ao máximo que a coluna seja forçada durante a relação e a qualquer momento da gravidez. No entanto, o sexo não é recomendado quando estiver existindo sangramento ou risco de sangramento, ameaça de aborto ou de parto prematuro. Essas ameaças acontecem geralmente nos primeiros três meses de gravidez, mas o casal deve estar atento durante todo o período gestacional. Superadas as ameaças o sexo poderá acontecer, mas lembrando, todo o período gestacional deverá ser acompanhado de um médico.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

AS VARIANTES DO HUMOR NO CICLO REPRODUTIVO FEMININO


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

No período após a ovulação e no que antecede a menstruação a mulher passa por uma variante de ocorrências que são caracterizadas por uma síndrome de mudanças comportamentais, afetivas, cognitivas e somáticas que são repetidas ao longo desses ciclos. A síndrome pré-menstrual (SPM), também conhecida como tensão pré-menstrual, conhecida popularmente como (TPM), consiste de uma ocorrência repetitiva de muito desconforte, irritabilidade, depressão ou fadiga. Os sintomas ainda são acompanhados de dor nas mamas, no abdômen e nas extremidades e de cefaléia. Em média se inicia cerca de 2 semanas antes da menstruação suavizando após o início da mesma. Tais sintomas são referentes à elevação e queda dos esteróides sexuais ovarianos, correlacionados aos neurotransmissores, ao humor e ao comportamento. Tais ocorrências são pertinentes a um cliclo espontâneo ovulatório sem a presença de intervenções famacológica, hormonal, sobretudo, de ingestão de drogas e álcool, nos quais mascarariam a progressão dos sintomas referente-se ao ciclo menstrual.

Entre as gestantes o índice de sintomas depressivos é elevado e estima-se que cerca de 10% preencham os critérios para o diagnóstico de transtorno do humor. Geralmente a depressão de leve intensidade das parturientes é transitória requerendo pouca intervenção por parte do profissional. No entanto, existem casos que evoluem para um episódio depressivo maior. Portanto, deve-se investigar a história de vida da paciente buscando encontrar a causa motivadora que pode ser encontrada numa revivência traumática do Édipo, na relação atual com seu companheiro, por estar vivendo uma situação estressante ou mesmo traumática,  um luto, fatores psicossociais, etc. Existe também a possibilidade do quadro se agravar para doenças puerperais psicóticas graves, podendo chegar ao ponto da mãe ver a criança como algo diabólico, ou mesmo não reconhecê-la como filho, interferindo extremamente em toda estrutura famíliar. Em ambos os casos aconselha-se o tratamento medicamentoso com uma psicoterapia. É importante lembrar que a mulher no período gestacional passa por sentimentos ambivalentes em relação à maternidade e podem estar sujeitos a exageros.

Durante o período do climatério existem muitas flutuações hormonais que são próprias da faixa etária e do emocional da mulher, podendo provocar tristeza, choro fácil, desânimo, cansaço, falta de energia, ansiedade, nervosismo, irritabilidade, insônia, perda de concentração, mudanças na libido e uma variação de sintomas depressivos, entre outros. É preciso salientar que climatério não representa a mesma coisa que menopausa. Compreende-se por climatério uma transição que está acontecendo no ciclo de reprodução da mulher, ou seja, uma transição do período reprodutivo para o período não reprodutivo; já a menopausa, tem seu início a contar da última menstruação da vida da mulher

O surgimento da menopausa pode precipitar transtornos afetivos preexistentes, podendo assinalar para quadros depressivos de maior gravidade. Esta fase é extremamente influenciada por fatores sócio-familiares e culturais e alterações corporais. Tais fatores repercutem no surgimento de sentimentos como a perda da feminilidade, já que a mulher pode associar o fim do ciclo reprodutivo com o deixar de ser feminina, mudança na sexualidade, medo de ficar vulnerável a doenças crônicas entre outros. A mulher ainda tem que lidar com a queda dos níveis hormonais, a perda da massa óssea, e em alguns casos, pode surgir um quadro de incontinência urinária, ardência à micção que possibilita a adquirir infecções urinárias. Os pêlos pubianos tendem a ficar mais ralos e os grandes lábios mais finos, a mucosa vaginal perde elasticidade e flexibilidade propiciando a sangramentos e dor na penetração.

Na menopausa a mulher se confronta com um lastro de modificações  corporais que podem se constituir em um forte sentimento de perda para sua subjetividade. Recorrendo aos complexos de Édipo e de Castração podemos mencionar que a fertilidade para a mulher não se resume apenas na possibilidade de gerar um filho, mas o de ter o tão sonhado falo que ela não encontrou na mãe e por identificação também não encontrou em seu próprio corpo. É importante salientar um aspecto nesse caso, que não existe um significante para o “não ter o falo”, significante da mulher, e é justamente por não existir essa insígnia na mulher de ter o falo, que ela irá procurar no companheiro – o substituto do pai –, sendo com ele que ela poderá dispor do poder de ter o falo ao gerar um filho. Dito de outra forma, o filho representa o próprio falo para a mulher, ou seja, é o que a mulher sempre quis dizer para o homem e não pôde dizer antes, a saber, “sou eu quem tem e não você!”. Outro aspecto a ser levado em consideração é o da necessidade de se identificar como mulher e, consequentemente, de estabelecer a diferença entre os gêneros. Isto pode ser compreendido da seguinte forma: “minha fertilidade me faz ser a única a gerar uma criança e só eu gozo desse privilégio!” Aqui, não estamos falando em estabelecer a posição masculina ou a posição feminina, mesmo porque são posições acessíveis a ambos os sexos, mas de estabelecer a diferença entre os gêneros masculinos e femininos.

Sentir-se mulher é ter plena certeza que não terá o falo da forma que tem o homem, não no sentido machista, mas no sentido psicanalítico, vale salientar, mas de saber que poderá tê-lo por outras vias, e ter plena certeza de que ser mulher e fértil lhe concede o gozo do poder e o perfume da feminilidade, feminilidade esta construída inicialmente nas trocas entre a mãe e o bebê, uma forma de relação singular que a mãe terá com o filho ou com a filha, no caso em questão com a menina, que moldará as relações da menina com o mundo a partir de sua identificação com a mãe, processo esse cheio de nuances somatopsíquicas que incluem as marcas corpóreas primitivas, o que irá resultar na  constituição de realidades psíquicas singulares, ou seja, de uma realidade pré-simbólica, que deverá fundamentar para as simbolizações e por fim para uma  relação transferencial.

Como vimos, a mulher em sua trajetória subjetiva é marcada intensamente pelos seus ciclos biológicos e pelo social. Ao contrário de outros tempos, a mulher tem uma vida mais intensa. Seu corpo e sua sexualidade não se encontram mais reprimidos, pelo contrário, observa-se que seu corpo a cada dia passa a ser mais pulsional e sua feminilidade chega atingir a um erotismo nunca antes visto reflexo da própria pulsão que erotiza seu corpo e que exige uma satisfação imediata. Já dizia Freud (1856-1939) que mais do que “um enigma, o feminino é um corpo que, considerado como pulsional, está em constante construção.

Atualmente o ciclo reprodutivo feminino ou, melhor dizendo, os ciclos reprodutivos femininos, são vividos de forma diferente como se vivia há décadas atrás. Muito provavelmente são vividos com maior intensidade do que antes devido ao novo cenário contemporâneo que vem quebrando paradigmas e construindo uma nova mentalidade de vida. A mulher deixou de ser aquela mulher reprimida que Freud tratou – as histéricas – para ser uma mulher que se impõe em seu discurso e não reprime o seu desejo. No passado seu desejo era renegado pela sociedade e o que lhe restava era recalcá-lo sofrendo silenciosamente. No presente, provavelmente pelas inúmeras exigências de ser mulher, mãe e trabalhar tudo ao mesmo tempo a quebrar desse ritmo com certeza irá produzir algum mal-estar, mas o próprio ritmo, os próprios afazeres também. Somando a isso toda a história de vida da mulher, seus traumas, conflitos, seu corpo, sua sexualidade e inúmeros outros aspectos estarão presentes, por exemplo, em sua primeira menstruação – menarca –, em uma gestação e na menopausa. Compreender os ciclos reprodutivos da mulher é, sobretudo, ter uma visão mais ampla do universo feminino e de um lidar clínico com elas.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DEPRESSÃO PÓS-CASAMENTO

Foto/fonte: http://amandicaindica.blogspot.com.br/2011/12/dpc-depressao-pos-casamento-do-rechaud.html

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Os preparativos relacionados à cerimônia, o vestido de noiva, a festa, o sentimento que envolve o casal, o desejo de sair da casa dos pais e ter sua própria casa e ‘independência’, os sonhos e planos para o futuro entre eles os de ter filhos e a lua-de-mel, representa um momento cheio de expectativas e ansiedades para o casal, um momento mágico que se iguala a de um conto de fadas. No entanto todo esse festim esconde ou, melhor dizendo, passa despercebida a dependência emocional que ainda se tem em relação aos pais, sobretudo, da mãe, por ainda não ter acontecido o necessário “desmame” entre um dos parceiros ou mesmo de ambos, a todas as facilidades, conforto e mimos que mamãe e papai davam.

O casal ao retornar da lua-de-mel depara-se com uma estranha sensação de que todo aquele momento mágico que mobilizou o casal para um único objetivo, a saber, o casamento, acabou. Momento esse que a fantasia dos preparativos se finda e a realidade do casamento e de uma vida a dois se apresenta, demandando um novo objetivo e um bom projeto de vida. Essa sensação de estranheza pode deixar o casal por algum momento numa certa condição flutuante, fazendo emergir a seguinte pergunta: “E agora, o que fazer?”

O casamento ou uma vida co-relacionada à de casado exige um pensar no plural sem que seja restringida a singularidade de cada parceiro e uma co-responsabilidade dos atos. No entanto, o que se observa em muitos casos é que, um dos parceiros ou mesmo os dois buscam a mesma dinâmica de liberdade que tinham quanto solteiros, focando o que melhor lhe apraz, o desejo e a satisfação próprios, individualizados, ou seja, vive-se uma relação que ao invés de ser compartilhada a dois, é uma relação extremamente narcisista.

Os primeiros dias, meses e anos de uma vida a dois se constituem em  uma fase de apresentação e muito diálogo, flexibilidade e adaptação, sobretudo, de co-responsabilidades. Será nessa fase que se experimenta a tolerância em relação a comportamentos que não se apresentavam tão nitidamente no namoro; ou porque o período de convivência não permitiu, ou porque estavam encobertos pela venda da paixão. Será nesse período que deverá existir a confluência dos Eu’s, ou, seja, um Eu menos individual e narcisista cede lugar para um projeto de vida a dois. A intolerância representa justamente o contrário, assinalando para um indivíduo preso a um narcisismo primário e despreparado emocional para uma convivência do porte.

A mulher que se casa não deixa de ser filha, mas o lugar que antes ela ocupava não é mais o mesmo, ou seja, ela não se encontra mais ocupando o berço esplêndido da mamãe e nem do papai. Tal condição também se remete ao homem. Quando se casa de certa forma se vive o luto da fase de solteiro e daquela identidade para celebrar a fase que se inicia. A mulher ao sair da casa do pai deixa de ser a filha e a irmã para ser a esposa do marido; já o homem passa a ser marido, compartilhando com a mulher as demandas dessa nova vida. Trocando em miúdos, as facilidades e o conforto que encontravam na casa dos pais devem se tornar boas recordações de uma época que acabou, pois a nova realidade requer uma demanda de construção e crescimento a dois. Dentre a demanda de construção está a manutenção do amor, que precisa do cultivo e da compreensão, da atenção e disponibilidade recíproca.

Quero chamar atenção para um aspecto que pode decorrer de uma forte expectativa por parte de um parceiro em relação ao outro. Excesso de expectativa pode sinalizar para uma condição de dependência emocional. A carência por parte de um dos parceiros aumenta a tendência de uma baixa autoestima, podendo levar a comportamentos de insegurança, de imaturidade ou de egoísmo que geram cobranças, brigas e desgaste logo no início da relação. A quebra daquilo do que se esperava no parceiro provoca uma frustração que reaviva a carência pela qual a pessoa foi marcada na dinâmica edipiana, podendo levá-la a um estado de tristeza persistente, ou seja, a uma depressão. O que antes era um sonho se esbarra na realidade e no desencanto.  

A depressão nos primeiros dias de casado é consequência de vários fatores dentre eles o emocional e o psicológico, podendo atingir homens como mulheres a depender do perfil da personalidade de cada um e da intensidade de idealização e expectativas que se tem do casamento. Mas ao salientar o aspecto histórico e cultural de nossa sociedade, a depressão pós-casamento torna-se mais uma realidade do público feminino do que do masculino, isso porque, mesmo que se escute por parte das mulheres um discurso de não querer nada a sério e da prática do ficar sem compromisso, no íntimo elas ainda sonham com seus príncipes encantados – síndrome de cinderela – e esperam que tudo seja maravilhoso, por isso elas acabam sofrendo mais quando algo não está da forma que sempre imaginaram.  
Os fatores externos como o econômico e o social também são observados, como por exemplo, intensas atividades profissionais que exijam muitas horas longe de casa e do parceiro, contribuindo para a solidão do outro e dificuldade financeira que atravessa o casal. No entanto, não adentraremos em tais perspectivas.  

Segundo pesquisas, o número de mulheres que se casaram recentemente e que estão sofrendo de depressão pós-nupcial é cada vez maior. Relatos como sentimentos de tristeza, remorso, frustração, desapontamento e vazio é cada vez mais comum. Em contrapartida, existe o discurso da estranheza de se viver tais sentimentos já que se concretizou o sonho de se casar com a pessoa amada depois de tantos planejamentos.

Casar ou compartilhar de uma relação a dois debaixo do mesmo teto, sobretudo, quando esta é a primeira experiência do gênero, não é nada fácil nem para a mulher e nem para o homem. A etiologia da palavra “Compartilhar”  compreende: “dividir com”; “partilhar com”; “distribuir”, “repartir ou compartir”. Portanto, é isso que os recém-casados devem fazer, ou seja, estreitar ao máximo o diálogo na tomada de qualquer decisão e comportamento. A intimidade entre os parceiros deve ser sempre estreita, a demarcação dos limites respeitada e o amor sempre cultivado. Tais providências poderão evitar  precipitações e intransigências que levem ao desgaste da relação e que venha debilitar emocionalmente o casal. Conhecer bem o outro pode amenizar os problemas que surjam na convivência a dois.

O casamento não é a morte dos sonhos, mas um sonho sonhado a dois que não está isento dos percalços da vida, pois até nos sonhos noturnos esse ou aquele sonho pode deixar alguma lembrança angustiante para o indivíduo.   

A depressão pós-casamento não chega a ser de fato uma doença, pois na maioria das vezes representa apenas o choque inicial ou uma tristeza ao se deparar com uma realidade nova que representa a vida de casado e, consequentemente, não saber lidar com essa nova situação. No entanto, a persistência de um quadro de desânimo, triste o tempo todo, falta de apetite, desânimo para sair de casa e insônia ou sonolência demais, esse tipo de comportamento corresponde a um quadro de depressão. Agora, o que deve ficar claro, não existindo nenhum outro fator em jogo, como por exemplo, um marido torturador ou coisa do tipo, ou um ambiente familiar ou externo inóspito, o simples fato de casar não provoca depressão, mas se caso aconteça é porque já existia uma predisposição, um antecedente para tal.   

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


domingo, 21 de julho de 2013

DEPRESSÃO, UMA DOENÇA DO HUMOR

Foto/fonte: http://noticias.r7.com/saude/noticias/ate-2020-a-depressao-sera-a-doenca-mais-incapacitante-do-mundo-diz-oms-20100130.html

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

A depressão não é uma doença dos dias de hoje, documentos antigos registram casos de distúrbios do humor desde a antiguidade. No Antigo Testamento, encontramos a história da síndrome depressiva do Rei Saul, a história do suicídio de Ajax, na Ilíada de Homero. Ao redor do ano 30, Aulus Cornelius Celsus descreveu a melancolia em seu trabalho “De re medicina” como uma depressão causada pela bílis negra. Já na idade média, a Medicina permaneceu ativa nos países islâmicos e em "Rhazes", Avicena, o médico judeu Maimonides considerava a melancolia como uma entidade patológica discreta. Grandes artistas do passado também quiseram esboçar o que achavam da melancolia. Em 1686, Bonet descreveu uma doença mental que chamou de "maníaco-melancholicus". Jules Falret, em 1854, descreveu uma condição chamada "folie circulaire", na qual o indivíduo experimentava humores alternados de mania e depressão. Jules Baillarger (psiquiatra) descreveu a condição "folie à double forme", na qual o indivíduo tornava-se deprimido e ficava num estado de estupor do qual eventualmente se recuperava. Em 1882, Karl Kahlbaum (psiquiatra) usou o termo ciclotimia, descreveu a mania e depressão como estágios da mesma doença. Em 1896, Emil Kraepelin, descreveu o conceito de psicose maníaco-depressiva.

Como acabamos de ver, em uma breve retrospectiva, não é de hoje que a depressão se faz presente entre os Homens. Não é raro ouvirmos relatos de parentes, pessoas amigas ou, mais próximas, dizerem que se encontram depressivos e sem motivação para a vida. A depressão, já há algum tempo, inspira preocupação por parte da saúde pública mundial, devido ao grande aumento dos casos. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmam que a depressão está entre as principais causas que contribuem para a incapacitação de uma pessoa e que, já atinge um alarmante quadro de 121 milhões de pessoas ao redor do mundo. Infelizmente, pelo que prevê a OMS, as projeções não são nada animadoras, e daqui para o ano de 2020, a depressão será a segunda maior causa de incapacitação e perda da qualidade de vida de um indivíduo, estando abaixo, apenas, das doenças cardiovasculares. Atualmente, ela ocupa a quarta posição.

No Brasil, estima-se que cerca de 17 milhões de pessoas tenham depressão, levantamento feito pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). No ano de 2008, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social, 91.551 trabalhadores foram afastados de suas atividades profissionais por causa da depressão, sendo que, 5.989 estão afastados do trabalho e a causa geradora da depressão, ligada ao próprio ofício, e 85.562 a causa não teria ligação direta com o trabalho exercido. Como já disse no início desse artigo, ouve-se muito dizer que “A” ou “B” está com depressão; algumas, de fato, estão, mas outras, simplesmente encontram-se tristes, e que este estado de humor é momentâneo e sem maiores consequências.

A depressão é um rebaixamento do humor com um estado mental mórbido, apresentando uma série de alterações do comportamento, do tipo: abatimento; afastamento do convívio social; isolamento, passando o maior tempo do dia no quarto fechado e às escuras; perda do interesse nas atividades que antes dava prazer, como as atividades profissionais, acadêmicas e artísticas que praticava; perda de interesse nas relações interpessoais; sentimento de culpa ou autodepreciação, gerando, também, a baixa auto-estima; desesperança; falta de apetite; sono alterado; dificuldade de concentração, fadiga corporal e sensação de fraqueza geral e em alguns casos, desejo de morrer ou de tirar a própria vida. Vale aqui ressaltar que, existem casos das depressões sazonais que ocorrem em particular no período do inverno, mais conhecidos como Desordem Afetiva de Estação (Seasonal Affective Disorder – S.A.D.).

A visão que o deprimido tem do mundo será o espelho de seu estado de humor, portanto, a forma que o indivíduo vê o mundo e a vida será completamente desesperançosa, sem brilho e sem qualquer tipo de motivação sadia e renovadora.


Tipos de depressão: Depressão maior; Depressão crônica (distimia); Depressão atípica; Depressão pós-parto; Distúrbio afetivo sazonal (DAS), Tensão pré-menstrual (TPM) e Pesar.


Depressão Maior: São 5 (cinco) os sintomas que se apresentam nesse tipo de depressão e que perduram, no mínimo, de duas semanas. São eles: desânimo na maioria dos dias e na maior parte do dia (em adolescentes e crianças há um predomínio da irritabilidade); falta de prazer nas atividades diárias; perda do apetite e/ou diminuição do peso; distúrbios do sono — desde insônia até sono excessivo — durante quase todo o dia; sensação de agitação ou languidez intensa; fadiga constante; sentimento de culpa constante; dificuldade de concentração e idéias recorrentes de suicídio ou morte.

Depressão Crônica (distimia): Esse tipo de depressão também possui vários sintomas presentes na depressão maior, porém com menos intensidade, entretanto, tendo um período maior de tempo, pelo menos de 2 (dois) anos. É descrita como uma leve tristeza que se estende silenciosamente na maioria das atividades da pessoa. De uma forma geral, não acarreta distúrbios no apetite ou no desejo sexual, mania, agitação ou comportamento sedentário. A proporção de casos de suicídios neste tipo de depressão é a mesma dos deprimidos graves. Provavelmente devido à duração dos sintomas, os pacientes com depressão crônica não apresentam grandes alterações no humor ou nas atividades diárias, apesar de se sentirem mais desanimados e desesperançosos, e serem também mais pessimistas. Os pacientes crônicos podem sofrer episódios de depressão maior, tipo já descrito anteriormente, criando, assim, um quadro de depressão dupla.

Depressão Atípica: Este tipo faz com que as pessoas comam muito, durmam muito e sintam-se enfadadas, apresentando, ainda, um forte sentimento de rejeição.

Depressão pós-parto: Como o próprio nome já está dizendo, surge após o parto, provavelmente deve-se a perturbações e alterações do foro emocional e/ou hormonal da mulher, uma vez que o corpo sofre demasiadas alterações com o nascimento da criança. É verificado, também, nesses casos, desconfortos e sensações de dores nas costas, que podem agravar o estado emocional e hormonal da mulher. Como nos casos de partos naturais a bacia sofre alterações para o nascimento da criança, como a nível da coluna, atribui-se a esse particular uma das origens da depressão pós-parto, a causa física.

Distúrbio afetivo sazonal (DAS): Este tipo caracteriza-se por episódios anuais de depressão, ocorrendo mais durante o outono ou o inverno, podendo desaparecer na primavera ou no verão, quando então tendem a apresentar uma fase maníaca. Incluem sintomas como fadiga, tendência a comer muito doce e dormir demais no inverno, mas uma minoria come menos do que o costume e sofre de insônia.

Tensão pré-menstrual (TPM): Nesse período em que se encontra a mulher, é verificada uma depressão acentuada, acompanhada de uma grande irritabilidade e tensão antes da menstruação, afetando entre 3% e 8% das mulheres em idade fértil. O diagnóstico baseia-se na presença de, pelo menos, 5 dos sintomas descritos no quadro da depressão maior na maioria dos ciclos menstruais, ocorrendo uma piora dos sintomas uma semana antes da chegada do fluxo menstrual, melhorando logo após a passagem da menstruação.

Pesar: O pesar, também conhecido como reação de luto, não é propriamente dito um tipo de depressão, mas possuem muito em comum. O pesar, em sua significação, é uma resposta emocional saudável e importante, quando se lida com perdas. Normalmente, possui um período agudo que, com o tempo, vai cedendo. Nas pessoas sem outros distúrbios emocionais, o sentimento de aflição dura entre três e seis meses. A pessoa passa por uma sucessão de emoções que incluem choque e negação, solidão, desespero, alienação social e raiva. O período de recuperação consome outros 3 a 6 meses. Após esse tempo, se o sentimento de pesar ainda é muito intenso, ele pode afetar a saúde da pessoa ou predispô-la ao desenvolvimento de uma depressão propriamente dita.

Depressão Secundária a Doenças Orgânicas: acidente vascular cerebral ("Derrame"), tumor cerebral, doenças da tireóide, etc.

Depressão Endógena: por deficiência de neurotransmissores. Exs.: depressão do velho, depressão familiar e psicose maníaco-depressiva.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

A DROGA CIBERNÉTICA

Fonte: http://www.culturamix.com/tecnologia/como-funciona-a-dependencia-de-computador

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Desde a chegada do primeiro computador no Brasil, um Univac-120, da Sperry, importado pelo Governo de São Paulo no ano de 1957, que ocupou um andar inteiro do prédio onde foi instalado, até os dias atuais com os preciosos e versáteis microcomputadores, notebooks, tablets, apples e a somar a esse mundo digital, a internet, o nosso país adentrou no que antes era considerado, apenas, o futuro de uma Era tecnológica. Ao ingressar nesse mundo tecnológico, o Brasil absorveu uma cultura globalizante que se chama Cultura Cibernética, que igual a qualquer outra cultura possui suas peculiaridades.

Cada vez mais todas essas ferramentas vêm ocupando um importante espaço no cotidiano das pessoas, seja em passar um e-mail, fazer alguma pesquisa, realizar alguma compra, verificar um extrato bancário, ler um noticiário, enfim, sejam quais forem os nossos hábitos já estão atrelados à cultura cibernética. O móbil de todas essas ferramentas tem como propósito facilitar as nossas vidas nos mais variados setores. Entretanto, como tudo na vida requer sensatez e equilíbrio, o uso abusivo e frenético de tais ferramentas irá sinalizar uma sintomatologia patológica ou, seja, uma compulsão por jogos e pela própria internet.

Tanto para a psiquiatria como para a psicologia e psicanálise a dependência da internet (DI) é um conceito recente e que é caracterizado pela incapacidade de controlar o próprio uso da Internet, sobretudo, o de ficar uma grande quantidade de horas jogando pelo computador. Essa prática ocasiona um intenso sofrimento psíquico para a pessoa e somado a isso, vários outros prejuízos significativos na vida do indivíduo.

Os chamados jogos interativos que são mais procurados por crianças, adolescentes e jovens adultos já contam com mais de 11 milhões de jogadores inscritos em todo o mundo, como é o caso do World of Warcraf, segundo a PTGamers. Essas pessoas de tão fissuradas que estão nos jogos passam horas e mais horas em frente ao computador, alheios a realidade, esquecidos de suas próprias necessidades básicas, como comer e dormir. Quando se alimentam, comem sem sair de perto do computador e muitas vezes veem o dia amanhecer e só assim, vencidos pelo cansaço, é que se entregam ao sono, mas assim que se acordam voltam à mesma rotina. Pais e cuidadores atentem-se, pois estamos falando de uma dependência tão perigosa quanto à dependência química, segundo constataram os psicólogos da Interdisciplinary Addiction Research Group, na Charité University Hospital Berlin, na Alemanha. Os resultados do estudo realizado indicou que os mecanismos de dependência dos jogos de computador no cérebro são semelhantes aos provocados pelo vício de drogas, como o álcool. A partir do resultado encontrado, diversas clínicas foram abertas visando o tratamento desses dependentes.

Na China, por exemplo, já se contabilizam 2 milhões de jovens dependentes, segundo pesquisa promovida pela Liga da Juventude Comunista. Nos anos de 2006 a 2007, o Hospital das Clínicas (HC), de São Paulo, o primeiro a tratar de adolescentes e adultos dependentes de internet, constatou que em relação aos adolescentes o foco do problema está entre 12 a 17 anos de idade.

As compulsões ou comportamentos compulsivos ou aditivos que são gerados pela dependência, são hábitos aprendidos (internalizados) e seguidos por alguma gratificação emocional, geralmente objetivando um alívio de ansiedade ou de angústia. Tais comportamentos são ações que foram executadas inúmeras vezes e acontecem quase automaticamente. A gratificação que se segue ao ato, seja ela o prazer ou alívio do desprazer, reforça a pessoa a repeti-lo, mas, com o tempo, depois desse alívio imediato, segue-se uma sensação negativa por não ter resistido ao impulso de realizá-lo. Mesmo assim, a gratificação inicial (o reforço positivo) permanece mais forte, levando a repetição. Chegará um momento em que mesmo que a pessoa não queira acessar a internet ou jogar, uma pressão da ordem do pulsional (de algo que é muito intenso), da satisfação imediata, do prazer, irá obrigá-la a se conectar a rede ou jogar.

A pessoa sofre porque, apesar do objetivo de aliviar as tensões emocionais, não existirá um bem estar mental. A isto, mesmo sendo a pulsão da ordem da satisfação, a tensão psíquica proveniente da ansiedade ou angústia terá um quantitativo maior do que a esperada satisfação, promovendo, então, o sofrimento psíquico do indivíduo. Segundo Lacan (1901-1981), a angústia estaria relacionada com a questão da falta. Portanto, a angústia nada mais é do que uma sinalização dessa falta que emerge e deixa a pessoa no vazio, um vazio existencial.

Antigas e saudáveis brincadeiras que exigiam espaço, movimentação e que também serviam para o desenvolvimento da psicomotricidade e dos laços relacionais das crianças ficaram para trás, dando lugar há horas a fio de frente a um monitor teclando num sei lá o quê. É de salientar que as crianças que se encontram no extremo da anormalidade se apresentam hiperexcitadas, rebeldes, ansiosas, isoladas, alienadas ou extremamente consumistas. Crianças, adolescentes e adultos poderão deixar o contato com seus familiares e amigos ou, então, tê-los apenas pela rede, confinando-se ao seu quarto e elegendo como seu principal companheiro o seu computador. Esse isolamento no futuro poderá também levar a depressão e o agravamento do quadro. Quais implicações terão essas inovações tecnológicas para a formação das subjetividades dos chamados neo-sujeitos? A isto só Deus sabe ou a sociedade no futuro.


* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO: O TRABALHO DE PARTO E AS ETAPAS DO NASCIMENTO


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O trabalho de parto é um acontecimento difícil tanto para a mulher como para o bebê, provocando uma série de mudanças uterinas, cervicais, entre outras, as quais serão denominadas de parturição. Geralmente, a parturição é iniciada cerca de duas semanas antes do parto, quando se verifica a elevação dos níveis de estrogênio que irá estimular o útero a se contrair e a cérvix a ficar flexível. Serão através das contrações uterinas que começam por volta dos 266 dias após a concepção como suaves retesamentos do útero é que o feto será expulso. Poderá acontecer que a mulher durante os últimos meses da gravidez sinta algumas vezes falsas contrações, mas só tomará como verdadeiras as contrações que possua uma maior regularidade e intensidade, essas serão as contrações do nascimento.

O trabalho de parto se desenvolve em três etapas. A primeira possui uma duração aproximada de doze horas sendo que, para a mulher que está tendo o seu primeiro filho este tempo será um pouco mais prolongado. Em uma segunda gravidez, ou seja, em um segundo parto, esse tempo tende a ser menor. Esta etapa é extremamente crucial para a vida do bebê. Durante essa etapa é que se verificam as contrações uterinas regulares e cada vez mais frequentes que irão causar a dilatação ou alargamento da cérvix. Na segunda etapa as contrações já estão mais intensas e também são mais constantes durando aproximadamente uma hora. Ela é marcada quando a cabeça do bebê começa a se deslocar pela cérvix em direção ao canal vaginal, terminando quando a criança emerge totalmente do corpo da mãe. Essa etapa do parto é sem sombra de dúvidas crucial para o bebê, pois caso dure mais do que duas horas, sinalizando que a criança precisa de ajuda para efetuar por completo o seu nascimento, o médico se utilizará do fórceps para segurar a cabeça do bebê, ou então, poderá usar a extração a vácuo com uma ventosa de aspiração para puxar a criança para fora do corpo da mãe. Ao término dessa etapa nasce o bebê. Na terceira e última etapa que dura entre cinco a trinta minutos, a placenta e o cordão umbilical são expelidos do útero e o cordão umbilical é cortado pelo médico.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise, graduando do 8º período de psicologia.