quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O RELACIONAMENTO DO OBJETO TRANSICIONAL COM O OBJETO INTERNO



* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O objeto transicional conduz o bebê para o mundo externo e, consequentemente, para o simbólico, promovendo uma nova etapa em seu desenvolvimento. No entanto, para que isso ocorra é necessário que exista uma boa relação do objeto interno e o objeto transicional. Dito de outra forma, o objeto transicional só estará presente na vida do bebê quando o objeto interno for vivo e o suficientemente bom – mãe suficientemente boa –. Mas o objeto interno depende para ter essas características da existência – esta mãe tem que está presente –, da vitalidade e do comportamento externo, ou seja, do seio, da figura da mãe e de seus cuidados e do ambiente de uma forma geral. 

Caso exista alguma falha em alguns desses pontos ou se não for o suficientemente bom para o bebê, segundo Klein, provocará no bebê um caráter persecutório do objeto interno.  Ocorrendo uma falha  prolongada do objeto externo fará com que o objeto interno venha perder o sentido para a criança e, consequentemente, o objeto transicional também. Um exemplo possível de acontecer é quando a mãe por qualquer choro da criança logo pensa que é fome e segue para amamentar o bebê. Esse choro pode ter uma motivação de outra ordem, por exemplo, de alguma cólica que ele esteja sentindo. O peito da mãe será associado ao mal-estar da cólica, criando consequências posteriores para a alimentação da criança. Klein nos diz que, o objeto transicional pode representar o seio ‘externo’, mas de modo indireto, pelo fato de representar um seio ‘interno’.

Segundo Freud (1856-1939), não existe qualquer possibilidade de que o bebê progrida do princípio do prazer para o princípio de realidade ou para além da identificação primária a não ser que exista uma mãe suficientemente boa. A mãe não é necessariamente a mãe biológica do bebê, mas quem ocupe e exerça essa função.

A mãe suficientemente boa é aquela que faz uma adaptação ativa às necessidades do bebê e que, gradualmente vai diminuindo de acordo com o desenvolvimento e capacitação do bebê de suportar as falhas na adaptação e por sua vez de tolerar algumas frustrações. 

O bebê vai lidar com as falhas da mãe por meio de algumas experiências vividas. Conforme Winnicott, através de experiências repetitivas de que a frustração tem um limite de tempo, salientando que no início esse limite dever bem curto; a memória, a revivescência, o devaneio, o sonho; a integração entre passado, presente e futuro.

No início da adaptação a mãe deve compreender que esta deve ser quase perfeita, como diz Winnicott, não sendo assim não será possível para o bebê começar a desenvolver a capacidade de fazer a liga com o mundo externo, ou seja, de se relacionar com a realidade externa.   

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


sábado, 10 de agosto de 2013

O FETO E A VIDA INTRA-UTERINA


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O feto no período de tempo em que permanece no útero materno desenvolve várias atividades, demonstrando claramente que mesmo antes de nascer já possui vigor para realizar algumas ações. O feto realiza ações como a de chutar, virar-se, flexionar o corpo, movimentar os olhos, cerrar os punhos, soluça, suga os polegares entre outras.  Isso é possível devido às membranas flexíveis das paredes uterinas e do saco amniótico, as quais envolvem o anteparo protetor do líquido amniótico. Com isso, permitem e até mesmo estimulam movimentos limitados. Foi observado em  estudo que os fetos reagem ao estresse da gravidez da mãe, existindo uma co-ligação dessa resposta a uma variação do ritmo cardíaco do feto que pode apresentar ritmos cardíacos mais lentos, porém mais variáveis. No entanto a partir de seu crescimento os movimentos vão ficando mais restritos devido à diminuição do espaço. Entre a 28ª e a 32ª semanas acontecerá um grande e significativo salto em todos os aspectos do desenvolvimento fetal.

Provavelmente muitas pessoas acreditam que exista um comportamento padrão para todos os fetos, mas isso não condiz com a realidade. Movimentos e nível de atividade dos fetos são diferentes, mostrando diferenças individuais bem claras com ritmos cardíacos que variam em regularidade e velocidade. Os fetos masculinos são mais ativos e tendem a se movimentar com mais vigor do que os femininos ao longo de toda a gestação, independentemente de tamanho. A isto, podemos considerar que a tendência dos meninos serem mais ativos do que as meninas poderia ter uma causa inata.  

Aproximadamente por volta da 12ª semana de gestação, o feto engole e inala parte do líquido amniótico em que ele flutua. O líquido amniótico possui substâncias que atravessaram a placenta que vieram da corrente sanguínea da mãe e entram na corrente sanguínea do feto. Talvez seja através do compartilhamento dessas substâncias que se estimulem os sentidos do paladar e do olfato, que começam a surgir no feto, contribuindo também, provavelmente, para o desenvolvimento de órgãos necessários para a respiração e para digestão. Antes mesmo do nascimento o feto já possui o sistema olfativo que controla o sentido do olfato bem desenvolvido.

Outro aspecto da atividade do feto e que se mostra assim quando a criança nasce é o de parecer lembrar-se de sons, músicas e, sobretudo, da voz de sua mãe. Uma experiência realizada com bebês de três meses de vida apresentou o seguinte quadro: os bebês que ao chuparem as chupetas uma gravação era acionada com uma história que as mães haviam lido em voz alta durante os últimos seis meses de gravidez, sugaram mais as chupetas do que os bebês que as mães não haviam recitado nenhuma história antes do nascimento. Um experimento similar foi realizado com bebês recém-nascidos de dois a quatro dias e assinalou uma preferência para sequências musicais e verbais ouvidas antes do nascimento. Eles também preferem a voz materna à de outras mulheres, vozes femininas a masculinas e a língua natal da mãe à outra. A constatação da preferência do feto à voz da mãe foi fundamentada ao descobrir que, quando a mãe lia uma história o ritmo cardíaco do feto logo aumentava e se fosse uma estranha que lesse o ritmo diminuiria.


* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

AS VARIANTES DO HUMOR NO CICLO REPRODUTIVO FEMININO


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

No período após a ovulação e no que antecede a menstruação a mulher passa por uma variante de ocorrências que são caracterizadas por uma síndrome de mudanças comportamentais, afetivas, cognitivas e somáticas que são repetidas ao longo desses ciclos. A síndrome pré-menstrual (SPM), também conhecida como tensão pré-menstrual, conhecida popularmente como (TPM), consiste de uma ocorrência repetitiva de muito desconforte, irritabilidade, depressão ou fadiga. Os sintomas ainda são acompanhados de dor nas mamas, no abdômen e nas extremidades e de cefaléia. Em média se inicia cerca de 2 semanas antes da menstruação suavizando após o início da mesma. Tais sintomas são referentes à elevação e queda dos esteróides sexuais ovarianos, correlacionados aos neurotransmissores, ao humor e ao comportamento. Tais ocorrências são pertinentes a um cliclo espontâneo ovulatório sem a presença de intervenções famacológica, hormonal, sobretudo, de ingestão de drogas e álcool, nos quais mascarariam a progressão dos sintomas referente-se ao ciclo menstrual.

Entre as gestantes o índice de sintomas depressivos é elevado e estima-se que cerca de 10% preencham os critérios para o diagnóstico de transtorno do humor. Geralmente a depressão de leve intensidade das parturientes é transitória requerendo pouca intervenção por parte do profissional. No entanto, existem casos que evoluem para um episódio depressivo maior. Portanto, deve-se investigar a história de vida da paciente buscando encontrar a causa motivadora que pode ser encontrada numa revivência traumática do Édipo, na relação atual com seu companheiro, por estar vivendo uma situação estressante ou mesmo traumática,  um luto, fatores psicossociais, etc. Existe também a possibilidade do quadro se agravar para doenças puerperais psicóticas graves, podendo chegar ao ponto da mãe ver a criança como algo diabólico, ou mesmo não reconhecê-la como filho, interferindo extremamente em toda estrutura famíliar. Em ambos os casos aconselha-se o tratamento medicamentoso com uma psicoterapia. É importante lembrar que a mulher no período gestacional passa por sentimentos ambivalentes em relação à maternidade e podem estar sujeitos a exageros.

Durante o período do climatério existem muitas flutuações hormonais que são próprias da faixa etária e do emocional da mulher, podendo provocar tristeza, choro fácil, desânimo, cansaço, falta de energia, ansiedade, nervosismo, irritabilidade, insônia, perda de concentração, mudanças na libido e uma variação de sintomas depressivos, entre outros. É preciso salientar que climatério não representa a mesma coisa que menopausa. Compreende-se por climatério uma transição que está acontecendo no ciclo de reprodução da mulher, ou seja, uma transição do período reprodutivo para o período não reprodutivo; já a menopausa, tem seu início a contar da última menstruação da vida da mulher

O surgimento da menopausa pode precipitar transtornos afetivos preexistentes, podendo assinalar para quadros depressivos de maior gravidade. Esta fase é extremamente influenciada por fatores sócio-familiares e culturais e alterações corporais. Tais fatores repercutem no surgimento de sentimentos como a perda da feminilidade, já que a mulher pode associar o fim do ciclo reprodutivo com o deixar de ser feminina, mudança na sexualidade, medo de ficar vulnerável a doenças crônicas entre outros. A mulher ainda tem que lidar com a queda dos níveis hormonais, a perda da massa óssea, e em alguns casos, pode surgir um quadro de incontinência urinária, ardência à micção que possibilita a adquirir infecções urinárias. Os pêlos pubianos tendem a ficar mais ralos e os grandes lábios mais finos, a mucosa vaginal perde elasticidade e flexibilidade propiciando a sangramentos e dor na penetração.

Na menopausa a mulher se confronta com um lastro de modificações  corporais que podem se constituir em um forte sentimento de perda para sua subjetividade. Recorrendo aos complexos de Édipo e de Castração podemos mencionar que a fertilidade para a mulher não se resume apenas na possibilidade de gerar um filho, mas o de ter o tão sonhado falo que ela não encontrou na mãe e por identificação também não encontrou em seu próprio corpo. É importante salientar um aspecto nesse caso, que não existe um significante para o “não ter o falo”, significante da mulher, e é justamente por não existir essa insígnia na mulher de ter o falo, que ela irá procurar no companheiro – o substituto do pai –, sendo com ele que ela poderá dispor do poder de ter o falo ao gerar um filho. Dito de outra forma, o filho representa o próprio falo para a mulher, ou seja, é o que a mulher sempre quis dizer para o homem e não pôde dizer antes, a saber, “sou eu quem tem e não você!”. Outro aspecto a ser levado em consideração é o da necessidade de se identificar como mulher e, consequentemente, de estabelecer a diferença entre os gêneros. Isto pode ser compreendido da seguinte forma: “minha fertilidade me faz ser a única a gerar uma criança e só eu gozo desse privilégio!” Aqui, não estamos falando em estabelecer a posição masculina ou a posição feminina, mesmo porque são posições acessíveis a ambos os sexos, mas de estabelecer a diferença entre os gêneros masculinos e femininos.

Sentir-se mulher é ter plena certeza que não terá o falo da forma que tem o homem, não no sentido machista, mas no sentido psicanalítico, vale salientar, mas de saber que poderá tê-lo por outras vias, e ter plena certeza de que ser mulher e fértil lhe concede o gozo do poder e o perfume da feminilidade, feminilidade esta construída inicialmente nas trocas entre a mãe e o bebê, uma forma de relação singular que a mãe terá com o filho ou com a filha, no caso em questão com a menina, que moldará as relações da menina com o mundo a partir de sua identificação com a mãe, processo esse cheio de nuances somatopsíquicas que incluem as marcas corpóreas primitivas, o que irá resultar na  constituição de realidades psíquicas singulares, ou seja, de uma realidade pré-simbólica, que deverá fundamentar para as simbolizações e por fim para uma  relação transferencial.

Como vimos, a mulher em sua trajetória subjetiva é marcada intensamente pelos seus ciclos biológicos e pelo social. Ao contrário de outros tempos, a mulher tem uma vida mais intensa. Seu corpo e sua sexualidade não se encontram mais reprimidos, pelo contrário, observa-se que seu corpo a cada dia passa a ser mais pulsional e sua feminilidade chega atingir a um erotismo nunca antes visto reflexo da própria pulsão que erotiza seu corpo e que exige uma satisfação imediata. Já dizia Freud (1856-1939) que mais do que “um enigma, o feminino é um corpo que, considerado como pulsional, está em constante construção.

Atualmente o ciclo reprodutivo feminino ou, melhor dizendo, os ciclos reprodutivos femininos, são vividos de forma diferente como se vivia há décadas atrás. Muito provavelmente são vividos com maior intensidade do que antes devido ao novo cenário contemporâneo que vem quebrando paradigmas e construindo uma nova mentalidade de vida. A mulher deixou de ser aquela mulher reprimida que Freud tratou – as histéricas – para ser uma mulher que se impõe em seu discurso e não reprime o seu desejo. No passado seu desejo era renegado pela sociedade e o que lhe restava era recalcá-lo sofrendo silenciosamente. No presente, provavelmente pelas inúmeras exigências de ser mulher, mãe e trabalhar tudo ao mesmo tempo a quebrar desse ritmo com certeza irá produzir algum mal-estar, mas o próprio ritmo, os próprios afazeres também. Somando a isso toda a história de vida da mulher, seus traumas, conflitos, seu corpo, sua sexualidade e inúmeros outros aspectos estarão presentes, por exemplo, em sua primeira menstruação – menarca –, em uma gestação e na menopausa. Compreender os ciclos reprodutivos da mulher é, sobretudo, ter uma visão mais ampla do universo feminino e de um lidar clínico com elas.

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O AUTISMO E SUA INCÓGNITA


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

Em 1943, o psiquiatra austríaco e diretor do serviço de psiquiatria do Johns Hopkins Hospital, Dr. Léo Kanner, ao observar o comportamento de algumas crianças menores de um ano que fugia ao padrão de comportamento, assinalando para uma acentuada tendência ao retraimento e com diagnóstico de intensa debilidade mental ou de deficiência auditiva, tendo como principal indicativo a impossibilidade de estabelecer desde o início da vida contato com as pessoas e com a realidade, descreveu e nomeou o quadro do autismo infantil precoce. Kanner relata que as crianças ao serem pegas pelos pais depois de horas sem vê-los não esboçavam qualquer tipo de reação, não mudavam de posição ou mesmo de fisionomia, como também não se moldavam ao corpo de quem as segurassem.

Para alguns psicanalistas, existe a compreensão de que o autismo estaria vinculado a uma estrutura psicótica sendo uma variante da esquizofrenia. Eles asseveram que existiria como na psicose uma forclusão do Nome do Pai, um modo de retorno ao gozo. Esta visão é rebatida por outros psicanalistas que compartilham da idéia da não existência do Outro, do S¹ e do Objeto a. Não podendo dizer em uma forclusão do Nome do Pai, mas sim de uma forclusão de uma simbolização primordial da mãe, já que é do discurso do mestre que partem os demais discursos. As duas visões podem ser compreendidas da seguinte forma. No autismo haveria uma falha da função materna e, na psicose, uma falha da função paterna. Isso significa que no primeiro caso, no qual denota uma maior lógica, a mãe falhou na relação com o pequeno ser, não conseguindo estabelecer uma boa interação com ele, provocando, assim, uma experiência traumática de distanciamento no início da constituição subjetiva do indivíduo, ou seja, na fase de maior fragilidade e vulnerabilidade do ser humano. Portanto, é mais adequado dizer que existe uma exclusão ao invés de forclusão existente na psicose.  

Numa visão neurológica, compreende-se que os processos cerebrais ligados à comunicação sofrem alterações que desencadeiam o transtorno muito antes das primeiras características se apresentarem. Chegou-se a esta conclusão a partir de uma recente pesquisa conduzida pelo pesquisador Jason Wolff, da Chapel Hill University, da Carolina do Norte, publicada pelo American Journal of Psychiatry. Os pesquisadores investigaram o desenvolvimento cerebral de 92 bebês. Um aspecto significativo desta pesquisa é que todos os 92 bebês investigados eram irmãos de autistas. Os pesquisadores através de exames de ressonância magnética acompanharam as mudanças na organização neurológica dos bebês, e quando eles atingiram a idade de 2 anos, 28 crianças teriam desenvolvido o autismo. No entendimento dos pesquisadores a incidência do transtorno entre irmãos possibilita uma correlação genética. Foi observado que o componente sólido do sistema nervoso central – substância branca – que é responsável pela transmissão de sinais entre regiões do cérebro aos poucos foi se formando nas crianças que posteriormente desenvolveram o autismo. Já nas outras 64 crianças essa estrutura se desenvolveu logo. Também foram observadas alterações no desenvolvimento das fibras nervosas que conectam as áreas cerebrais. Segundo os pesquisadores, esses indícios podem sugerir a possibilidade que o transtorno alcance todo o cérebro e não uma única área específica. 



* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

OBJETO TRANSICIONAL, O OBJETO QUE FAZ LIGA AO MUNDO EXTERNO


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

O bebê se encontra inteiramente dependente de sua mãe para realizar suas necessidades, e será através dela, ou seja, desse Outro primordial ou de quem ocupe este lugar que a criança construirá sua integração como unidade. Na medida em que a integração do infante vai se tornando mais consistente, seu amadurecimento exigirá algo do mundo externo que se faça presente e se misture a sua onipotência, ou seja, um objeto transicional que cumprirá também o papel de indicar o simbólico, um instrumento que possibilita a travessia do bebê desde a sua subjetividade até a objetividade, abrindo, assim, o leque de suas experimentações. Em outras palavras, o objeto transicional é um instrumento que conduz o bebê rumo a um Não-eu que ele sentirá como externo, provocando sua primeira experiência de posse sem ser a do seio materno, mesmo porque para o bebê nessa fase seu corpo se confunde com o corpo da mãe sendo um só corpo.

Segundo Winnicott, o objeto transicional é eleito pelo bebê por volta dos 4-6-8-12 meses de idade, e a capacidade de adotá-lo denota que o andamento de seu desenvolvimento está em curso. A partir daí observam-se algumas mudanças e a principal delas é a de que o bebê está passando de uma dependência absoluta para uma dependência relativa, preparando terreno para o estágio do concernimento. Neste estágio a integração do ego já atingiu um grau em que o indivíduo pode perceber a personalidade da figura materna, tendo como consequência o sentimento de concernimento quanto aos resultados de suas experiências instintivas, tanto físicas quanto ideativas, ou seja, o estágio de concernimento traz a capacidade para a criança de sentir culpa.

O bebê que está passando de uma dependência para outra pode se tornar consciente da necessidade dos detalhes do cuidado maternal e relacioná-los, numa dimensão crescente, a impulsos pessoais.

Os objetos transicionais exercem a função de amparo ao substituírem a mãe, e é quase uma parte inseparável da criança, marcando o início da quebra da unidade mãe-bebê. Winnicott salientou três realizações fundamentais relativas a  progressão da dependência absoluta para a dependência relativa, são elas: a integração, a personificação e o início das relações objetivas.

É na fase da dependência relativa que o bebê vai experienciar estados de integração e não integração, formar conceitos de Eu e Não-eu – mundo interno e interno – e o amadurecimento necessário para o estágio de concernimento. Winnicott também chamou a fase da dependência relativa de rumo à independência, e é justamente isso que essas fases representam, o fomento de proporcionar a  independência da criança frente à sua mãe. O bebê vai desenvolver meios para prescindir dos cuidados da mãe, ou seja, não será tão dependente quanto antes. Mas isso só ocorrerá caso exista nitidamente para o bebê a memória dos cuidados que a mãe teve com ele, da projeção das necessidades pessoais com a introjeção do cuidado maternal e com o desenvolvimento da confiança no ambiente. 

Os objetos transicionais pode ser um pano que esteja próximo ao bebê, o lençol, a chupeta, um boneco ou boneca, e outros. Conforme Winnicott, quando o bebê passa a usar sons organizados (mmmm, tá, dá), pode aparecer uma ‘palavra’ para o objeto transicional. O nome dado pelo bebê para esses objetos iniciais é frequentemente significativo, e normalmente traz incorporada a parte de uma palavra usada pelos adultos. Por exemplo, o nome pode ser ‘Baa”, o ‘b” sendo parte da palavra ‘bebê’.

Winnicott faz uma observação que provavelmente irá afetar muitas mães com  traço obsessivo por limpeza. No entendimento de Winnicott, a mãe não deve lavar o pano ou lençol ou qualquer que seja o objeto transicional, deixando até mesmo ficar malcheiroso. O autor argumenta que se o objeto for lavado haverá uma ruptura na experiência do bebê, uma quebra que poderá destruir o valor e o significado do objeto. E para o caso de querer trocar o objeto por outro igual não adianta, pois por mais que seja idêntico não produzirá o mesmo efeito. Outra importante função do objeto transicional é o de ajudar no desmame já que aos poucos vai existindo o descolamento mãe-bebê.   

O destino do objeto transicional é que gradualmente vá sendo descatexizado, de modo que no decorrer dos anos ele se torne relegado ao limbo. Não quer dizer que o objeto transicional seja esquecido pelo indivíduo e nem tampouco que exista a vivência de um luto, mas simplesmente ele perde o sentido de antes para se tornar fenômenos transicionais difusos que irão responder pela realidade psíquica e o mundo externo de modo bem mais complexo do que antes e bem mais amplo, sejam bem-vidos a fases mais maduras do ser humano.

 * Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

CEGUEIRA ESPECULAR E SURDEZ SIGNIFICANTE


* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

A cegueira especular corresponde a um estado de opacidade do olhar da mãe para com seu bebê, em outras palavras, é o olhar que não exprime desejo, afeto, amor. Um olhar que não obedece ao funcionamento do espelho não produzindo a instauração do registro imaginário. A opacidade ou turvação desse olhar poderá levar a sérias consequências para o bebê, inclusive o autismo. Freud compreendia que “o olho que vê também tem prazer”. Lacan também compartilhava do mesmo entendimento chegando a criar sua própria teoria sobre a questão, a saber, o estádio do espelho, ou seja, o eu se constitui a partir do “a” como função da imagem especular, isto é, através do imaginário, confirmado pelo olhar do Outro. Em sua teoria ele estabeleceu uma condição a mais para o olhar, a de pulsão escópica. O que ele queria dizer com isso? Que a satisfação pulsional inerente ao olhar está diretamente ligada ao objeto desse olhar, desse desejo, ou seja, o objeto alvo da intencionalidade do querer da mãe. O bebê deve ser aos olhos da mãe um objeto perceptível, portanto, o objeto alvo da intencionalidade desse querer.

Freud estabelece uma relação entre pulsão escópica com a pulsão oral ao afirmar que os olhos possuem a mesma função que a boca, ou seja, a visão e o olhar são tão importantes quanto à alimentação e o beijo. Já, Lacan, aproxima as duas pulsões, escópica e invocante, e diz que a partir de um comportamento satisfatório na relação mãe-bebê é que se constitui o circuito pulsional do infante. Trocando em miúdos tanto o olhar desejante como a fala de uma invocação que pressupõe uma alteridade, ou seja, uma possibilidade que faz o bebê vir a ser. Freud colocou a visão em um lugar de destaque entre os sentidos, chegando aventar a possibilidade de ter ocorrido um recalque orgânico do olfato, assim que o homem adquiriu a postura ereta, deixando-o neste aspecto numa posição inferior aos demais seres da raça animal. Segundo ele, a postura ereta desencadeou um natural afastamento entre os órgãos sexuais e os olfativos. Com isso, o olfato perde sua função de mediador das trocas sexuais entre os homens e a visão passa a ocupar este lugar.

A mãe ao ouvir o choramingado do bebê e nomeá-lo a uma necessidade pulsional do filho, necessidade que ela atribui que ele esteja sentindo naquela hora, sendo este um momento de mal-estar para o bebê, ela está introduzindo o mesmo na linguagem através de seu enunciado. Em poucas palavras podemos dizer que ela está cumprindo o seu papel em alienar o filho ao seu desejo materno. A criança é colocada pela mãe numa posição de objeto e essa alienação que a criança sofre em relação a mãe nada mais é do que um traço de identificação com seu outro primordial.

A partir do que já foi exposto acredito já poderíamos compreender o que deve representar o olhar materno para seu filho e, também, diferenciá-lo de um simples enxergar o filho que anda bem longe de uma lógica especular.  Agora, o que representa a surdez significante de uma mãe? Voltemos para o choramingado do bebê. Uma mãe suficientemente boa ao ouvir seu bebê chorando irá logo nomear aquele choro a alguma necessidade pulsional como fome, sono ou cólica. A mãe que possui a surdez do qual me refiro escuta o choro da criança e se aborrece com ele, pois o choro para ela é apenas barulho, deixando a mãe extremamente irritada. Tal comportamento impede que exista a relação especular entre mãe-bebê e a nomeação de uma cadeia de significantes favorável para o bebê.  

* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.


quarta-feira, 24 de julho de 2013

O DESEJO DE SER MÃE: DA INFÂNCIA À CONCEPÇÃO

Foto/fonte: http://www.bbel.com.br/qualidade-de-vida/post/dicas-de-como-perder-peso-posparto.aspx

* Por Jorge Roberto Fragoso Lins

A relação mãe-bebê se inicia muito antes da concepção da criança, podemos dizer que de forma inconsciente seu surgimento acontece ainda quando criança, quando essa mulher ainda brincava de boneca e casinha. Esses dois significantes  irão se inscrever na mulher para o resto de sua vida. A criança naturalmente investe o seu afeto no objeto boneca que como dizemos é um forte representante psíquico, e a forma de como ela se relaciona e mesmo o afeto que é investido nesse objeto está muito ligado à dinâmica edipiana que ela vivencia. Segundo Freud, a menina nessa fase fantasia ter um filho do pai.

Esse fantasiar é fruto de seu apaixonamento e identificação com o pai que está na figura do primeiro significante masculino para ela. Este é o período onde a menina vê a mãe como uma rival, colocando-se entre o casal na busca de ser o centro das atenções para o pai. Suas tentativas serão infrutíferas e ao perceber que o lugar que ela tanto deseja já está ocupado pela mãe, mulher de seu pai, objeto amado e desejado por ele, a menina para ter então o amor do pai identifica-se e alia-se a mãe para então ocupar o mesmo lugar para o seu futuro marido ou companheiro, ou seja, irá atrás daquele que tem o falo, a saber, o substituto paterno. A isso Freud denominou de “resolução edípica” e Lacan de “normatização edípica”. Portanto, o desejo de uma mulher por um homem com quem possa ter filhos, representa o investimento de amor objetal que é marcado pela diferença sexual que teve seu primeiro registro na fase edípica.  

O que aos poucos vai se delineando para a menina com os cuidados que tem com sua boneca é o sentimento de maternidade que poderá ser consolidado quando for uma mulher. Quando uma menina diz para uma coleguinha em alto bom som: “Não, essa boneca é minha!”. Ela não está apenas exercendo o seu sentimento de posse, mas exercendo o seu sentimento de posse por um objeto afetivo que possui uma enorme representação como já vimos. Esse sentimento de posse que surgiu  pelo investimento libidinal realizado pela menina através dos cuidados e mimos contribuirá quando for uma mulher para a seguinte certeza: ter filhos não é o mesmo de ser mãe.

O processo de transformação psíquica que a mulher passa em sua gestação envolve três grandes momentos que englobam pequenas etapas vividas, diferente para cada sujeito, que são a transformação de filha para mãe, a da autoimagem corporal e a relação entre sexualidade e maternidade. A cada um desses momentos requer uma reordenação psíquica que incide sobre as vicissitudes de cada mulher. Somando a esses aspectos, também incluímos uma recapitulação que a gestante faz de sua vida. Nesse momento situações familiares prazerosas ou não poderão retornar no psicológico da mulher, sobretudo, a sua relação com os pais, seus primeiros significantes na vida. Ter sido uma criança desejada e amada e ter passado pelo edípo de forma serena sem maiores conflitos é de suma importância para a futura mãe reverter esses significantes para o bebê que está por vir. Seu desejo pela maternidade que já foi fundado ainda quando criança, o conforto e a segurança de seu marido ou companheiro e um ambiente externo acolhedor, apaziguará a tensão natural de um trabalho de parto, com uma única certeza depois que a criança nascer e a tensão acabar, a mãe olhará para o seu filho e sorrirá, dizendo: “Essa criança é meu filho, fruto de meu desejo!” Coisa que no passado ela dizia: “Não, essa boneca é minha!”.


* Jorge Roberto Fragoso Lins é sociólogo, pós-graduado em intervenções clínicas em psicanálise e graduando do 8º período de psicologia.